19.8.09


No Pelô

Posted by: Liz Silveira

No outro lado da cidade, onde a essência da mesma se traduz, percebo-me parada bem no meio de uma das estreitas ruas de paralelepípedos. Cá estou, numa atípica segunda-feira de agosto, em pleno centro histórico de salvador- o Pelourinho. Olho para os lados e lá estão os caraterísticos guardinhas fardados em cada esquina. Confesso que eu gostaria que não fosse necessário tantos deles, já que a função básica delegada é, certamente, proteger os turistas dos "moleques de rua" - em sua maioria, moradores do próprio bairro e nossos conterrâneos. Enfim...
Sozinha, decido adiar um pouco a minha volta para casa e caminho em direção ao Largo do Cruzeiro de São Francisco. No percurso, deixo-me levar pela magia envolvente desse lugar que nós, baianos, já olhamos com olhos tão acostumados. Agimos como se o batuque que ecoa dos antigos casarios 365 dias por ano não fosse especialmente encantador dentre tantas outras particularidades nossas - exploradas em demasia, admito - como as cores, o cheiro de dendê, o turbante da baiana de acarajé e o sorriso e gingado dos nossos negros e mulatos.
O Pelourinho não pára, não dorme. Os comerciantes e vendedores ambulantes, ou mesmo artistas de rua tentam sugar a qualquer custo algo dos transeuntes, geralmente turistas branquelos, esguios e de língua enrolada ao esboçarem tímidos "não, obrrrigádow".
Ao me sentar numa charmosa lanchonete, peço um capuccino médio, saboreio aquela delícia polvilhada de canela e assumo a posição de humilde espectadora por alguns instantes. Surpreendentemente, constatei, há uma grande semelhança entre os estrangeiros e nós: quem vai ao Pelourinho percebe-se numa íntima busca à tão comentada baianidade nagô. E ali eu estava: uma baiana querendo se abaianar.

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